Tem coisa que não deveria caber na pele.
Rotina que esmaga.
Silêncios que pesam.
Solidão que não abraça.
E essa cidade que sufoca mais do que respira.
O problema não é doer. O problema é quando a gente começa a chamar isso de normal.
Acostumar... essa palavra é traiçoeira.
Não é aceitação. É anestesia disfarçada de adaptação.
Aceitar não é se conformar.
Aceitar é olhar no olho da realidade e dizer:
"Eu vejo você. Eu entendo você. Mas você não define quem eu sou, nem onde eu vou ficar."
Quando você percebe que "se acostumar" é só um script mental rodando em loop... uma pergunta começa a ecoar por dentro:
"Por que diabos eu tô aceitando isso?"
"Isso conversa com os meus valores... ou só com meu medo?"
Desfusão é isso.
É aquele momento em que você percebe que seus pensamentos não são fatos.
Eles não são sentença.
Não são verdade absoluta.
São só... pensamentos.
E quando essa ficha cai, nasce um espaço.
Um espaço onde você pode escolher.
Abrir as cortinas.
Sentir o sol encostar no rosto.
Ouvir um pássaro que insiste em lembrar que existe vida lá fora.
Respirar... não pra sobreviver, mas pra existir de verdade.
Tem um "eu" aí dentro.
Um "eu" que observa tudo isso acontecer.
Que olha pra sua própria vida e pergunta, sem rodeios:
"É isso? É só isso mesmo que eu quero pra mim?"
A resposta não vem pronta. Nem fácil.
Mas ela começa quando você entende que...
Se acostumar é fácil.
Viver alinhado com quem você realmente é... dá trabalho.
Só que é esse trabalho que vale a pena.
Cada pequeno gesto na direção dos seus valores: abrir a janela, dizer não, escolher, recomeçar já é um rompimento com a anestesia do automático.
A vida não espera.
A vida não vai parar de te perguntar, todos os dias, de um jeito ou de outro:
"Você vai seguir fingindo que isso é normal... ou vai viver uma vida que faz sentido de verdade?"
Aceitar a dor.
Questionar os pensamentos que te prendem.
Estar presente.
Reconectar com quem você é.
Escolher os teus valores.
E agir.
Porque, sim...
A vida é curta demais pra se acostumar com menos do que você merece.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria… (Marina Colasanti 1972)
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.